Publicado por: Sérgio Costa | 19 de janeiro de 2013

 A mesóclise …

 

A mesóclise de Caetano, meu gato

 

Meu gato, Caetano, lambe o prato

Raspa o que sobrou do leite de Camões, meu outro gato

De seus bigodes pinga uma mesóclise

Sorrateiramente ele a segura no ar

Contemplativo  ronronando o mar azul

Da fachada de minha varanda amarela

 

                                                            Lana

 

Penetra minha alma

e diz se contém algo

faz a mala e me deixa

encontrarás um vazio enorme

tão poderoso e só

não tenhas medo

não recues

calma

tudo correrá bem

ou então refaz o percurso

e toma uma coca-cola.

 

 

 

 

Itaperuna

O caminho da pedra preta

O lugar da anta preta

 E de Músicos e do Maestro Ligiero

 Do café já cantado por Bandeira

 

 Dá manga gostosa

 Dá calor

 E deu o melhor fruto:

 Meu amor.

(Sérgio Costa)

 

 

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Publicado por: Sérgio Costa | 18 de outubro de 2012

Do outro lado d…

Do outro lado do Tejo

 

Há  sentimentos que não são dizíveis com palavras e, às vezes, nem um gesto resolve. Fiquei a observá-la de longe. Seus pequenos movimentos contidos deixavam-me absorto. Bebia a xícara de chá como quem sorve todo o sofrimento do mundo em um segundo.

Tentei um passo mas minhas pernas não se moviam. Gostaria de sair correndo para salvá-la. Teria eu evitado aquela lágrima que corria de um único olho. Descobri que não era culpado por  nossa existência. Decidi que o melhor era resolver logo a questão e partir dali o mais rápido possível. A Cidade estava pronta para receber a notícia. A esperança era que ela não cancelasse o grande evento da noite. Eu havia viajado mais de doze horas somente para dizer o quanto eu a admirava, não poderia fazê-lo de outra forma.

Saberia eu o que era atravessar o Atlântico? Deslizava de seu rosto o sofrimento de ter partido cedo, cedo demais. Alinhavava minha memória e não encontrava resíduo que pudesse estabelecer a ponte com o vivido agora e também com a necessidade de ter, ser para o futuro. Certamente escolheria o mais fácil, desviar a atenção e olhar o mar ali na minha frente. Se pudesse retirar do mar todos os segredos acumulados… perder os significados da morte. Hoje o rio Tejo representaria nada. Não sei se amanhã terei os mesmos sentimentos, pouco importa. As transposições de lugar dificultam a eternidade, iludem o sujeito, e depois ele que se vire. Foi-se o tempo em que o clichê era realmente clichê. Seria mais fácil? Onde colocar meia palavra?

O movimento das mãos era suave e firme, porém desequilibrava a pintura. Pensei eternizá-lo com minha lente. Detive-me. O garçom aproximou-se, disse ligeiras frases, ela fez sinal positivo. Em seguida, pegou dentro da bolsa um pequeno livro e começou a folheá-lo como se procurasse alguma vírgula perdida. Fez o movimento mais de uma vez, parecia que dali sairia um sorriso, mas ficou só nisso. De repente, aquela lágrima corrida juntava-se às que declinavam do céu; com certeza, das deusas que não eram as do destino. Formavam outro rio que daria no Atlântico e, depois, faria ponte com o Brasil e a África.

A possibilidade de conseguir superar o mal entendido ficava cada vez mais distante. Difícil seria adequar a minha profissão a dela. Não pretendia deixar o meu país; além do mais, não tinha mais idade para aventuras, que os jovens se apoderem de seus destinos e façam o mundo melhor, eu já larguei esse processo. Procuro a cada dia desenvolver um modo de descobrir outras formas de me relacionar com a humanidade. Estou cansado de tentar entender as ações das pessoas. Pouco compreendo as minhas. Dizer a verdade para ela nesse exato momento pode ser mais um ato teatral. Talvez assegure a minha dignidade, somente isso.

Ela quis partir, disse que não me esperaria. Eu pedi pouco, argumentei que seríamos felizes, mas ela não soube, não quis, não pôde me esperar. Faltava tão pouco…. 

Naquele dia, eu havia reformulado todo o meu trabalho, daria o último retoque, o ponto final. Quando olhei para o quarto, as malas não estavam no lugar costumeiro. Sentei sem pernas que pudessem manter o corpo em pé. A tristeza tomou conta de todo o ambiente, tentei disfarçar mas a nossa confidente comum notou logo. Deu um pulo no meu colo como dissesse: “E agora? Confiei em vocês dois e acabei mal.” Ronronou e ficou ali parada quase sem movimento. Dei uma cochilada, estava muito cansado, trabalhara muito nas duas semanas que antecederam a data estabelecida para a entrega da  encomenda.

Acordei com a campainha tocando. Era a mãe dela, trazia o semblante tenso. Ficou segundos, minutos, horas olhando para o meu rosto. Levantou a mão, trazendo anos de temor adormecido pelo tempo; seu olhar percorreu a sala inteira, como a procurar algo perdido, deixado sem querer. Avistou o porta-retratos, perguntou se  poderia pegá-lo. Eu balancei a cabeça, tentei escutar o silêncio em volta, mas sabia pouco dessas artes. Ficou parada, a olhar a escrivaninha. O vento entrou pela janela e levou as folhas rabiscadas até seus pés. Eram poemas inacabados. Ela fez menção de lê-los mas se conteve. Resolveu virar-se e colocá-los sob o cubo de madeira. Segurou com carinho o violão de estimação e passou o dedos em movimento de música. Como eu gostava de ouvi-la. Eram sempre finais de semana repletos de amigos e ninguém arredava dali antes do galo cantar.

– Ela partiu –  disse-me secamente. E não falou mais uma palavra, nunca mais.

Publicado por: Sérgio Costa | 13 de maio de 2012

Púrpura

Púrpura 

 

Meu fino amor

Compartilhado

Com Ana

Com Cristina

Ou César

 

Caminho e vejo

A lagoa

E sinto a poesia

Que ainda não chegou

 

Publicado por: Sérgio Costa | 4 de maio de 2012

Cantiga de Capitu

 

                                                            Cantiga de Capitu

 

Canto o seu olhar dissimulado

Broto fresquinho

Parado no ar

A sua forma de vida

O seu jeito de amar.

 

Publicado por: Sérgio Costa | 30 de abril de 2012

Roses et anémones

Roses et anémones

 

A poesia atravessou

elegante

a Rua Humaitá

lambendo um sorvete

amarelo

 

Publicado por: Sérgio Costa | 22 de abril de 2012

Canção do exílio desesperada

Canção do exílio desesperada

 

Minha terra tem políticos

e bananeiras

economistas

e vacas traiçoeiras

 

E agora José?

 

O que fazer com tantas

cachoeiras, sabiás e manacás…

Se meu fluxo, influxo não se controla mais?

 

Não permitas, Deus! que eu morra,

Sem que eu compre meu apê;

Sem que desfrute os primores do meu apê;

Sem que ainda aviste as palmeiras,

Onde canta o sabiá, do meu apê.

 

Publicado por: Sérgio Costa | 15 de abril de 2012

O cego

 

    O cego

A palavra faca amolada

Seca

Límpida

Pronta para a digestão

O engolidor da palavra faca amolada

Mata a fome de poesia

Fica cego

          Ego.

 

Publicado por: Sérgio Costa | 11 de abril de 2012

A obra efêmera de vik

A obra efêmera de vik

A foto efeméride de Muniz

Meu doce chocolate que se esvai

Escorre de meus lábios

Me distrai

Cúmplices de imagens

De blogs

De bolhas de sabão

 

Publicado por: Sérgio Costa | 7 de abril de 2012

Em Porto Alegre

Em Porto Alegre

Continuam os passarinhos

Uma árvore tombada

Comemos no seu ninho

Publicado por: Sérgio Costa | 6 de abril de 2012

Águas cavadas

 

Águas cavadas e trazidas por mulheres apenas

Quantas lágrimas perdidas em sombras serenas

Musa que se dispersa e acena para o navio

Partidos  nossos corações não suportam tempestade

As mãos se tocam elegantemente sem piedade

Antes que a aurora chegue é preciso apagar o pavio 

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